Um Encontro Amoroso

Um Encontro Amoroso

O olhar sobre o mundo dentro e fora de minha casa, ainda na minha infância, onde via minha família e vizinhos em adoecimento e sofrimento podem ter influenciado minha opção na escolha pela medicina.

Um desejo forte de ajudar o outro me acompanha e sempre me acompanhou. No entanto, já no primeiro ano do curso veio a decepção: um curso de disciplinas fragmentadas onde não havia um rosto, um corpo, sujeito, pessoa inteira. Sempre me recordo do bisturi na mão e do quadro lição de anatomia de Rembrant. Ali tudo começava e terminava e abadia cedo o meu sonho de estar com o outro numa relação de cuidado e apoio da qual eu acreditava a medicina deveria tratar.

Optei então por dar aulas, para levar meus alunos ao pensar criativo e humano da relação médico – paciente: escuta, diálogo, compaixão. Desde já tentava eu focar a atenção no doente e não na doença. Já nesta época eu fazia uso de ilustrações e conteúdos de arte pois acreditava ser a medicina arte, o corpo arte, sensações.

O tempo passou me aposentei e abri de novo a janela do mundo e vi que o acelerado processo de desenvolvimento tecnológico, os templos de consumo, o interesse e a ganância por lucros, o poder da indústria farmacêutica, a medicalização da sociedade e a fragmentação crescente do ensino da saúde, deixavam em segundo plano valores humanistas como as emoções, solidariedade, fraternidade. “Nunca a Filosofia se fez tão necessária aos humanos quanto nos dias atuais onde os problemas existenciais acontecem em uma velocidade maior que os avanços tecnológicos” (M. Aiub.)

Consequentemente o cuidado integral do individuo, a capacidade de autonomia e autocuidado foram abandonados. Desconsiderava-se a importância de outros aspectos que poderiam contribuir para o adoecimento como o trabalho, as relações sociais, o meio ambiente. Assim fui em busca de caminhos que me levassem ao encontro do “eu -tu” “eu-mundo”.

Ao caminhar pelas ruas de minha cidade encontrei um folheto que dizia: Aula inaugural de Filosofia Clínica – Prof. Hélio Strassburger. Estava posto! Fui e ali estava o que buscava. A Proposta de Lúcio Packter me tocou e deu ferramentas para construir, com os elementos que eu já tinha, uma nova forma, um novo modo de encarar o mundo e de acolher o outro que a mim vinha em sofrimento ou em “assuntos” necessários ao seu próprio entendimento e busca de bem estar “Cada pessoas é única do princípio a eternidade. Cada pessoa ama, perde, vive, recebe, doa, participa, faz coisas de modo inédito, único”.

Fazer o curso de FC já significa muitas mudanças em si próprio – sua terapia já começa – pois ao ser Filosofia e ao ser Clínica seu processo de reflexão, autoconhecimento e dúvidas se põe em curso.

Não parei mais de estudar, ir aos encontros, ler. Tive sorte de conhecer e discutir com a Monica, o Will, o Lúcio, o Deleuze, a Olga, Nietzsche, Mariza, Buber, Foucault, Merleau – Ponty, VOCÊ e tantos outros que, é impossível citar a todos.

Hoje dou aulas de FC para grupos de mulheres e ando pelas ruas a falar desse “apaixonante exercício do filosofar”. Lamento não poder aí estar.

Abraço a todos pela iniciativa e participação, pois creio que a Filosofia por sua essência humanista pode auxiliar os profissionais de todas as áreas. Estando presente no processo de formação, permanecendo dia após dia na forma de reflexões, conversações grupos de estudo, no consultório, na sala de aula, empresas, no hospital, na porta das fábricas, na rua, cuidando e participando da sua relação com o outro.

Continuo com muitas dúvidas, angústias e sigo sem saber se terei respostas, se elas existem, se preciso delas. Sigo. Até.

Neysa

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