Não tem trabalho? Trabalhe a si mesmo

Não tem trabalho? Trabalhe a si mesmo

É  bom viver fazendo o que gostamos, sem precisar fingir pra agradar, ir pra não desagradar, socializar para não passar por ‘bicho do mato’. 

É bom quando é natural, quando flui sem que precisamos nos esforçar para isso.

Todos nós, em algum  momento de nossas vidas, precisamos nos comportar de modo artificial, fazer coisas que não queremos, estar com pessoas com as quais não nos identificamos, ir a lugares que não gostamos e por aí segue uma interminável lista de coisas que fazemos por obrigação.

Faz parte deste pacote, cheio de surpresas, que nos entregaram ao nascer, chamado vida. Sempre haverá o dia e a hora do compromisso para o qual precisamos colocar a roupa desconfortável, o sapato que aperta, falar de coisas que, definitivamente, não são nosso assunto preferido e interagir com pessoas com as quais não nos sentimos a vontade.

Temos problemas com compromissos e responsabilidades profissionais  por acreditarmos que são os responsáveis por nos fazerem passar por isto.

De fato, muitas vezes, o trabalho nos exige estar onde não queremos fazendo o que não gostamos. Mesmo quem obtém grande satisfação com seu trabalho reconhece que há uma obrigatoriedade de comportamentos e ações que nem sempre estamos dispostos a cumprir.

Porém, admitamos, não são apenas os compromissos e responsabilidades profissionais que nos exigem tais esforços. As relações interpessoais, por mais prazerosas que sejam, demandam compromisso, esforço, paciência, tolerância.

O trabalho e os relacionamentos humanos são duas áreas de nossas vidas – que podem estar intimamente ligadas – onde temos a oportunidade de nos aprimorando em uma, ficarmos mais e melhor preparados para a outra.

Em nosso dia a dia, por exemplo, podemos nos dar conta de nosso problema com autoridade quando queremos controlar cada detalhe de uma situação  para que tudo saia do jeito que desejamos.

Podemos descobrir que disciplina é o nosso ponto fraco quando nos vemos irritados porque o outro não se comporta exatamente como gostaríamos.

Podemos perceber que somos competitivos em demasia quando nos sentimos incomodados pelo que o outro pode e consegue e nós não podemos e/ou não conseguimos.

Nosso egoísmo fica visível  quando nos vemos exigindo gratidão por todos os favores prestados às pessoas ao nosso redor.

Se lançarmos um olhar atento sobre nossa vontade – ou sobre a falta dela  – podemos entender que não é o mercado de trabalho ou a falta de oportunidades que estão nos limitando, talvez cheguemos a conclusão de que somos nós mesmos.

Todas estes exemplos citados, aparecem em nosso cotidiano profissional, mesmo que nos esforcemos para camuflá-los, e podem nos abrir portas assim como podem fechá-las.

Em nossos relacionamentos pessoais estas características raramente ficam escondidas. Nós reclamamos, xingamos, brigamos, esbravejamos, somos irônicos, entristecemo-nos, choramos, nos isolamos, enfim, vivenciamos nossos sentimentos.

Sentimos o tempo todo em nosso trabalho, no entanto, dificilmente podemos expressar o que estamos sentindo da maneira como gostaríamos.

Nos relacionamentos de amizade, amorosos, familiares podemos sentir e viver as emoções livremente.

Não o faz quem não consegue ou não quer.

No ambiente profissional podemos trabalhar as relações que estabelecermos com nossos colegas – sejam gestores ou subordinados na hierarquia organizacional.

Como autônomos, podemos aprimorar nosso relacionamento com o cliente, colaborador, consumidor, leitor, paciente, enfim, com todas as pessoas com as quais interagimos.

O período sem trabalho, no entanto, é uma oportunidade rara de aprendermos mais sobre nós mesmos e melhorarmos as características que trazem sofrimento a nós e aos outros. Neste período, agimos menos e refletimos mais, o que nos dá a possibilidade de repensar nossos relacionamentos.

Posteriormente, este aprendizado poderá ser decisivo para que nossa relação com o trabalho seja mais natural e flua sem que precisemos nos esforçar tanto para isto.

Grayce Guglielmi Balod é Pedagoga, Psicóloga, especialista em Orientação
Profissional e Acadêmica de Filosofia Clínica. Palestrante no CONAMPRO.

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