Mudança de profissão

Mudança de profissão

Nós nascemos, crescemos, vamos nos formando como seres humanos que vivem em comunidade, e em determinada altura da vida – muitas vezes até bem cedo – devemos decidir qual profissão queremos para nossa vida. Estudamos muito, passamos no vestibular, por vezes acertamos naquilo que escolhemos, por vezes, depois de começar o curso, descobrimos que nada tem a ver conosco. Nem teríamos como saber antes, aos dezesseis, dezessete, dezoito anos, nada se conhece – em geral – das profissões. E, muitas vezes, muito pouco se conhece até de nós mesmos.

Por vezes prosseguimos de qualquer maneira, por vezes nos perdemos no caminho e ficamos sem rumo, indo de um curso a outro tentando nos encontrar.

Posso falar da minha experiência. Meu pai era engenheiro civil e arquiteto. Desde pequena eu o seguia nas obras, sentindo cheiro de cimento fresco e cal, vendo paredes serem erguidas, recobertas, se transformando em moradias. Em casa olhava livros de projetos e os coloria, sonhando com cada casa por dentro como deveria ser com seus móveis, cortinas, moradores. Tinha uma tendência forte para as artes, sobretudo o desenho, a pintura, embora gostasse muito da música também. Mas o meu forte mesmo era a literatura, sempre fui uma devoradora de livros.

Aos dezessete estava perdida como todos os meus colegas. Havia feito o que na época era comum, o teste vocacional, e de nada me ajudou, pois o resultado foi que eu me sairia bem em qualquer área de conhecimento que escolhesse. E me saí de fato. Optei por entrar na faculdade de arquitetura – morava então em São Paulo – e evidentemente meu foco foi entrar para a Universidade de São Paulo. E entrei.

Achava que estava no caminho certo. Ao menos esperava ter feito a escolha mais adequada, pois Física, que havia sido uma das ideias, estava fora de cogitação, meu pai achava que dar aulas não era profissão. Literatura tampouco. Então arquitetura. No final do primeiro ano – eram cinco de período integral – estava desanimada. No terceiro já não queria muito prosseguir, tinha dúvidas. No quarto ano fui fazer a matrícula arrastada. Mas no quinto já estava devidamente conformada.

Saí para o mercado de trabalho com todas as dificuldades possíveis, e após alguns anos consegui me colocar e passei a construir condomínios horizontais já em Curitiba. Via as paredes subirem e se transformarem em casas, via as pessoas se mudarem, isso era gratificante. Mas muita coisa não era. Talvez por não ser o que no meu íntimo eu queria para minha vida.

Bem no meu íntimo eu sentia que meu caminho era outro. Reagia cada vez mais com as dificuldades profissionais a ponto de me deprimir ou me entristecer. Ia para o escritório com um peso enorme. Continuava indo às obras, afinal, tinha responsabilidades, tinha que manter sozinha meus dois filhos e não poderia me dar ao luxo de ficar sonhando. E assim não me permiti sonhar, mas sonhava muitas vezes em pegar o carro e desaparecer na estrada sem deixar vestígios.

Através da Nichele conheci a Filosofia Clínica. Já havia passado por outras terapias, nem sempre a vida é um caminho fácil e plano. Mas a proposta era outra. A Filosofia em si já me atraía por sua característica existencial e de buscas. Filosofia Clínica? O que seria isso? Imagine ser atendido por um filósofo! Como partilhante comecei a trilhar um caminho junto à querida Nichele onde comecei outras buscas existenciais. Ainda não havia me encontrado por completo, mas havia decidido fazer a pós em filosofia clínica para meu conhecimento pessoal. Seria com a Nichele, mas quis o destino que ela regressasse ao Rio Grande do Sul. Anos depois encontrei o Lúcio. Como partilhante do Lúcio percorri muitas ruas do centro de Curitiba. Lúcio e seu método peripatético. Reencontrei o curso e depois de muitos flertes e participações em palestras e workshops decidi por fazer esta pós. Iniciei a pós e encontrei o que buscava.

No semestre seguinte fechei meu escritório e me matriculei na faculdade de Filosofia. Claro, preparei-me para dar este passo, para poder ficar três anos me dedicando a estudar e não descuidar das minhas obrigações. Mas afinal tinha que viver minha vida, não apenas a dos outros. Hoje posso dizer: ainda que meu curso não desse em nada como profissão, valeu. Valeu demais. Mas certamente esta será minha profissão. A Filosofia Clínica é humilde, humana, tem uma proposta especial e individual. Ajudar o meu semelhante e estudar muito, isso me faz muito feliz.

A troca que encontro na Filosofia Clínica é um constante aprendizado. Aprendo com quem me acompanha, onde sou partilhante, e aprendo com o partilhante, que me traz os fragmentos de sua vida e onde encontro tanta coisa que me falta. Nessa caminhada encontrei a profundidade que não sentia antes. Na Filosofia Clínica quem acompanha a partilha se coloca no mesmo nível do seu partilhante, é uma caminhada lado a lado onde os dois crescem. Além do que, a Filosofia Clínica não rotula ninguém, não estabelece doenças, cuida do ser humano em sua forma de ser no mundo. Uma pessoa autista não é um doente mental para o filósofo clínico, é alguém que tem uma forma particular de ser no mundo. Reconhecendo esse mundo se pode, junto ao partilhante, descobrir a melhor forma de se movimentar nele sem tantas arestas, sem tantos machucados.
Interessante como a felicidade às vezes está justamente em mudar o caminho.

Liana Vivekananda Zilber
Curitiba – PR

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