Flashback

Flashback

Era tudo tão simples.

Você acordava, vestia a roupa adequada para os compromissos do dia, tomava seu café da manhã e saía em direção ao trabalho.

Os dias eram cheios e, em alguns deles, você ‘esquecia’ o horário de almoço.

Eram tantas coisas para fazer que, de repente, você se dava conta que não tinha conseguido um tempinho nem para ‘fazer xixi’.

Um refrigerante e um pacote de salgadinhos foi o máximo que você comeu em muitos dos seus dias naquele trabalho.

Você tinha um horário combinado para voltar para sua casa e, todos os dias, quando este horário se aproximava olhava para o relógio e pensava consigo mesmo: -Precisarei ficar até mais tarde outra vez.

Você chegou a comentar com alguns colegas que sentia-se ‘adrenalizado’. Esta parecia a explicação mais plausível  para o que acontecia com você. Só podiam ser descargas de adrenalina  que o levavam adiante. Descargas estas desencadeadas pelo desejo de acertar, mostrar serviço, atingir sua meta, de agradar. Ou desencadeadas pelo medo de errar, de passar por incompetente, de fracassar, de cair na antipatia do chefe.

O que mais explicaria a necessidade cada vez menor de sono, seu pé pisando no acelerador de forma inconsequente no trajeto para o trabalho, pular as refeições principais, esquecer de compromissos pessoais, chegar em casa exaurido, sem ânimo para conviver com as pessoas que você mais ama, sem forças para cuidar de si mesmo com a gentileza que merece e, ainda assim, acordar pronto para mais um dia deste?

Mas você nem pensava, funcionava num moto contínuo, cientificamente inexplicável. Você nuca refletiu, não se ocupou em compreender.

Até que parou.

Parou sem desejar parar.

Você foi ao trabalho naquele dia, chegou antes do horário e, provavelmente, sairia depois, pensou.

Se houve algo de diferente foi que você se deu conta disso – e de algum modo, de todo o resto.

Você percebeu que ainda não havia amanhecido totalmente quando chegou – era horário de verão.

Pensou que, talvez, pudesse aproveitar o resto do dia com sua família porque se havia uma vantagem nessa época era o fato de que anoitecia mais tarde.

Mas  aquele dia não passava.

Você não sentiu a adrenalina e ficou difícil  trabalhar assim.

Todas as atividades que tinha para realizar se tornaram muito complexas.

Você começou a se questionar.

O que você estava fazendo ali? Por que tinha se ariscado tanto naquelas estradas? Há quanto tempo não via seus amigos? Qual fora a última vez que ligara pra seus pais?

Se deu conta, incrédulo, de que não ficara para a festa de casamento de sua irmã porque estava cansado demais.

De repente nada mais fazia sentido.

Então você não conseguiu mais pensar.

Você só conseguia sentir.

E tudo o que queria era ir para sua casa.

Estava catatônico e seu chefe perguntou o que estava acontecendo.

Você lhe disse que queria ir embora.

Você foi.

E não voltou mais.

Grayce Guglielmi Balod é Pedagoga, Psicóloga, especialista em Orientação Profissional e Acadêmica de Filosofia Clínica. Palestrante no CONAMPRO.

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